Entrevista: MËSTIZA: “Ainda sentimos que há muito que não mostrámos”
A dupla espanhola que está a transformar o flamenco em linguagem de pista
Há projetos que juntam duas coisas diferentes. E depois há projetos que fazem parecer que essas duas coisas sempre deveriam ter estado juntas.
É o caso das MËSTIZA.
Belah Sánchez e Patricia “Pitty” Bernad já tinham cerca de 15 anos de carreira cada uma quando decidiram juntar forças, em 2021. O resultado foi muito mais do que uma dupla de DJs: nasceu uma identidade própria, construída entre a tradição do flamenco, a energia hipnótica da música eletrónica e uma estética que parece saída de um filme.
Como é que duas DJs com carreiras próprias decidiram tornar-se uma dupla?
PITTY: Antes das MËSTIZA, já tínhamos cerca de 15 anos de carreira individual. Cada uma tinha o seu percurso, as suas experiências e a sua própria identidade musical.
Quando começámos a trabalhar juntas, percebemos rapidamente que havia algo muito mais poderoso naquilo que conseguíamos criar em conjunto.
Partilhávamos uma visão semelhante sobre a música, mas tínhamos personalidades e influências diferentes. A determinada altura, deixou de parecer apenas uma colaboração entre duas artistas e começou a ganhar vida própria.
Foi aí que nasceu verdadeiramente MËSTIZA.
O nome MËSTIZA está relacionado com a ideia de mistura. O que significa realmente para vocês? E o que está por trás de Sacro, o nome da vossa editora e dos vossos eventos?
BELAH: MËSTIZA vem precisamente da ideia de mistura. E isso está no centro de tudo o que fazemos.
Misturamos mundos diferentes: música eletrónica e flamenco, tradição e modernidade, as nossas raízes espanholas e um som muito mais global.
Gostámos da ideia de o próprio nome representar tudo isso de uma forma natural.
Sacro significa “sagrado” em espanhol. Quando criámos o conceito, queríamos que fosse mais do que apenas mais um evento de música eletrónica.
Existe algo quase ritualista no facto de as pessoas se juntarem à volta da música, dançarem juntas e partilharem exatamente a mesma energia.
Sacro nasceu dessa ideia e, entretanto, transformou-se num universo próprio.
Flamenco e música eletrónica. Porque é que quiseram juntar precisamente estes dois mundos?
PITTY: Para nós, nunca foi uma questão de juntar flamenco e música eletrónica simplesmente porque parecia uma combinação interessante.
O flamenco faz parte da cultura em que crescemos. A música eletrónica, por outro lado, é a linguagem através da qual nos expressamos enquanto artistas.
O mais interessante é encontrar o ponto onde estes dois mundos conseguem coexistir naturalmente.
Temos um enorme respeito pelo flamenco e por tudo aquilo que representa. Nunca quisemos disfarçá-lo, nem transformá-lo numa tendência.
Queremos pegar em elementos das nossas raízes e colocá-los a conversar com a música eletrónica contemporânea.
Talvez seja precisamente por isso que a nossa música consegue chegar a pessoas em partes completamente diferentes do mundo — mesmo a quem nunca cresceu com o flamenco.
Estão prestes a tocar em Londres e Nova Iorque. Qual é o sentimento de chegar a palcos como esses?
BELAH: Estamos incrivelmente entusiasmadas com os dois concertos.
Em Londres vamos tocar no Roundhouse, um espaço icónico de Camden onde já atuaram artistas como Amy Winehouse, Adele e Lady Gaga.
Levar MËSTIZA para um palco com uma história destas é muito especial para nós.
Em Nova Iorque já tocámos várias vezes, mas desta vez será a primeira vez que vamos atuar perante uma multidão tão grande num espaço exterior.
Por isso, sentimos que é um momento muito importante para nós.
A moda e a imagem parecem ter um papel tão importante como a própria música. MËSTIZA é mais do que um projeto musical?
PITTY: A moda sempre foi outra forma de expressão para nós.
Não separamos realmente a música da parte visual de MËSTIZA.
Aquilo que vestimos, o design do palco, as luzes e as imagens fazem todos parte da mesma identidade.
A música estará sempre no centro, mas gostamos de criar um mundo inteiro à sua volta.
Qual é a importância da representação feminina e do empowerment no vosso trabalho?
BELAH: Temos muito orgulho naquilo que conseguimos alcançar enquanto duas mulheres numa cena que historicamente foi muito dominada por homens.
Mas também queremos que o nosso trabalho fale por si.
A feminilidade é uma parte importante da nossa identidade. Para nós, empowerment significa sermos ambiciosas, estarmos no controlo do nosso projeto e assumirmos quem somos.
Se isso inspirar outras mulheres a fazerem o mesmo, então é algo de que temos muito orgulho.
Os vossos concertos são conhecidos por serem extremamente visuais. De onde vem essa preocupação? E existe vontade de levar MËSTIZA para o cinema ou televisão?
PITTY: Pensamos de uma forma muito visual quando criamos.
Somos inspiradas pelo cinema, pela moda, pela arquitetura e pela iconografia espanhola. É natural que essas referências acabem por fazer parte dos nossos espetáculos.
As duas adoramos cinema e todo esse universo cinematográfico.
Aliás, neste momento estamos envolvidas num projeto sobre o qual ainda não podemos falar.
Mas existe a possibilidade de a música das MËSTIZA chegar muito em breve ao grande ecrã.
Há alguma coisa que ainda queiram dizer?
BELAH: MËSTIZA ainda está a evoluir.
Aquilo que começou como uma forma de levar as nossas raízes para a música eletrónica transformou-se num universo criativo muito maior.
Queremos continuar a explorá-lo através da nossa música, dos nossos espetáculos e de Sacro, mantendo sempre a ligação às nossas origens.
Ainda sentimos que há muito que não mostrámos.
E agora, a conversa continua na Beat FM
Belah e Pitty vão estar brevemente no SSS Live, na Beat FM.
Uma oportunidade para ir além do palco e perceber melhor quem são as duas mulheres por trás de um dos projetos mais interessantes da atual música eletrónica espanhola — das raízes no flamenco à construção de Sacro, passando pelo som, pela imagem e por aquilo que ainda estão a preparar.
