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Entrevista: MËSTIZA: “Ainda sentimos que há muito que não mostrámos”

A dupla espanhola que está a transformar o flamenco em linguagem de pista

30 de agosto de 20265 min de leitura
Entrevista: MËSTIZA: “Ainda sentimos que há muito que não mostrámos”

Há projetos que juntam duas coisas diferentes. E depois há projetos que fazem parecer que essas duas coisas sempre deveriam ter estado juntas.

É o caso das MËSTIZA.

Belah Sánchez e Patricia “Pitty” Bernad já tinham cerca de 15 anos de carreira cada uma quando decidiram juntar forças, em 2021. O resultado foi muito mais do que uma dupla de DJs: nasceu uma identidade própria, construída entre a tradição do flamenco, a energia hipnótica da música eletrónica e uma estética que parece saída de um filme.

Como é que duas DJs com carreiras próprias decidiram tornar-se uma dupla?

PITTY: Antes das MËSTIZA, já tínhamos cerca de 15 anos de carreira individual. Cada uma tinha o seu percurso, as suas experiências e a sua própria identidade musical.

Quando começámos a trabalhar juntas, percebemos rapidamente que havia algo muito mais poderoso naquilo que conseguíamos criar em conjunto.

Partilhávamos uma visão semelhante sobre a música, mas tínhamos personalidades e influências diferentes. A determinada altura, deixou de parecer apenas uma colaboração entre duas artistas e começou a ganhar vida própria.

Foi aí que nasceu verdadeiramente MËSTIZA.

O nome MËSTIZA está relacionado com a ideia de mistura. O que significa realmente para vocês? E o que está por trás de Sacro, o nome da vossa editora e dos vossos eventos?

BELAH: MËSTIZA vem precisamente da ideia de mistura. E isso está no centro de tudo o que fazemos.

Misturamos mundos diferentes: música eletrónica e flamenco, tradição e modernidade, as nossas raízes espanholas e um som muito mais global.

Gostámos da ideia de o próprio nome representar tudo isso de uma forma natural.

Sacro significa “sagrado” em espanhol. Quando criámos o conceito, queríamos que fosse mais do que apenas mais um evento de música eletrónica.

Existe algo quase ritualista no facto de as pessoas se juntarem à volta da música, dançarem juntas e partilharem exatamente a mesma energia.

Sacro nasceu dessa ideia e, entretanto, transformou-se num universo próprio.

Flamenco e música eletrónica. Porque é que quiseram juntar precisamente estes dois mundos?

PITTY: Para nós, nunca foi uma questão de juntar flamenco e música eletrónica simplesmente porque parecia uma combinação interessante.

O flamenco faz parte da cultura em que crescemos. A música eletrónica, por outro lado, é a linguagem através da qual nos expressamos enquanto artistas.

O mais interessante é encontrar o ponto onde estes dois mundos conseguem coexistir naturalmente.

Temos um enorme respeito pelo flamenco e por tudo aquilo que representa. Nunca quisemos disfarçá-lo, nem transformá-lo numa tendência.

Queremos pegar em elementos das nossas raízes e colocá-los a conversar com a música eletrónica contemporânea.

Talvez seja precisamente por isso que a nossa música consegue chegar a pessoas em partes completamente diferentes do mundo — mesmo a quem nunca cresceu com o flamenco.

Estão prestes a tocar em Londres e Nova Iorque. Qual é o sentimento de chegar a palcos como esses?

BELAH: Estamos incrivelmente entusiasmadas com os dois concertos.

Em Londres vamos tocar no Roundhouse, um espaço icónico de Camden onde já atuaram artistas como Amy Winehouse, Adele e Lady Gaga.

Levar MËSTIZA para um palco com uma história destas é muito especial para nós.

Em Nova Iorque já tocámos várias vezes, mas desta vez será a primeira vez que vamos atuar perante uma multidão tão grande num espaço exterior.

Por isso, sentimos que é um momento muito importante para nós.

A moda e a imagem parecem ter um papel tão importante como a própria música. MËSTIZA é mais do que um projeto musical?

PITTY: A moda sempre foi outra forma de expressão para nós.

Não separamos realmente a música da parte visual de MËSTIZA.

Aquilo que vestimos, o design do palco, as luzes e as imagens fazem todos parte da mesma identidade.

A música estará sempre no centro, mas gostamos de criar um mundo inteiro à sua volta.

Qual é a importância da representação feminina e do empowerment no vosso trabalho?

BELAH: Temos muito orgulho naquilo que conseguimos alcançar enquanto duas mulheres numa cena que historicamente foi muito dominada por homens.

Mas também queremos que o nosso trabalho fale por si.

A feminilidade é uma parte importante da nossa identidade. Para nós, empowerment significa sermos ambiciosas, estarmos no controlo do nosso projeto e assumirmos quem somos.

Se isso inspirar outras mulheres a fazerem o mesmo, então é algo de que temos muito orgulho.

Os vossos concertos são conhecidos por serem extremamente visuais. De onde vem essa preocupação? E existe vontade de levar MËSTIZA para o cinema ou televisão?

PITTY: Pensamos de uma forma muito visual quando criamos.

Somos inspiradas pelo cinema, pela moda, pela arquitetura e pela iconografia espanhola. É natural que essas referências acabem por fazer parte dos nossos espetáculos.

As duas adoramos cinema e todo esse universo cinematográfico.

Aliás, neste momento estamos envolvidas num projeto sobre o qual ainda não podemos falar.

Mas existe a possibilidade de a música das MËSTIZA chegar muito em breve ao grande ecrã.

Há alguma coisa que ainda queiram dizer?

BELAH: MËSTIZA ainda está a evoluir.

Aquilo que começou como uma forma de levar as nossas raízes para a música eletrónica transformou-se num universo criativo muito maior.

Queremos continuar a explorá-lo através da nossa música, dos nossos espetáculos e de Sacro, mantendo sempre a ligação às nossas origens.

Ainda sentimos que há muito que não mostrámos.

E agora, a conversa continua na Beat FM

Belah e Pitty vão estar brevemente no SSS Live, na Beat FM.

Uma oportunidade para ir além do palco e perceber melhor quem são as duas mulheres por trás de um dos projetos mais interessantes da atual música eletrónica espanhola — das raízes no flamenco à construção de Sacro, passando pelo som, pela imagem e por aquilo que ainda estão a preparar.

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